segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A criação de um mito


Em todas as actividades da praxis humana, nenhuma tem a capacidade do desporto de gerar figuras consensuais.

Sendo uma área da experiência claramente emocional, logo sujeita a uma maior discrepância nas análises, a verdade é que o desporto possui este poder quase único de formar heróis unânimes aos olhos de milhões.

A morte de Eusébio despertou-nos para essa realidade. Não que a mesma fosse desconhecida mas no infortúnio é mais fácil encontrar a tal consensualidade que por vezes permanece no subconsciente em vida.

Ainda assim, o caso do Pantera Negra foi quase sempre uniforme. Desconheço se a tão famigerada humildade era efectivamente verdadeira. Também pouco interessa. Essa sempre foi a imagem que deixou transparecer junto do público e que perdurará nos corações.
Eusébio é um exemplo claro do que era um ídolo do futebol até à década de 80. Despertou sentimentos de pertença obviamente entre os seguidores do Benfica mas igualmente de Sporting e FC Porto. Eusébio pertenceu, acima de tudo, a Portugal, e esse foi o melhor exemplo da tal consensualidade acima referida. Torna-se, por isso, premente explicar este dom para arrebatar lados tão opostos.

Falamos aqui de um paradoxo: sendo hoje o desporto rei fortemente mediático, com as principais estrelas a adquirirem uma visibilidade sem precedentes, foi na época em que a rádio fazia as delícias dos ouvintes, a televisão dava os primeiros passos e internet era uma utopia que os ídolos do futebol mais se assemelharam a heróis.

No caso de Eusébio, graças um extraordinário talento mas também pela genuinidade e pureza. Numa altura em que a máquina do marketing era ainda suportada por um sistema rudimentar, por vezes amador, a venda da figura de Eusébio como ícone fez-se por caminhos naturais.

Graças à sua capacidade enquanto futebolista, claro, mas pela personalidade do ser humano. Era o tempo do amor à camisola. Sem os meios que existem atualmente, a sua popularização além-fronteiras foi construída com base no imaginário dado pela voz da rádio, algumas imagens televisivas, principalmente as do Mundial de 1966, e as histórias quase messiânicas que se espalhavam lá fora.

Depois, o tempo encarregou-se de manter a sua promoção ao longo dos anos, tornando-o um ícone mesmo entre aqueles que nunca o viram jogar.

Cristiano Ronaldo, Messi, entre outros, têm hoje à disposição uma “entourage” e meios incontáveis para promover da melhor forma a sua imagem. No entanto, os sentimentos que despertam, tendo um cariz quase planetário, não atingem nunca o estado do consenso. Uns gostam, outros odeiam. A natureza cada vez mais competitiva do desporto assim o dita, portanto não falamos aqui de feitios ou tão sequer educação. O futebol está hoje estruturado para tornar os jogadores em deuses, simultaneamente mais próximos mas também mais distantes do comum mortal.
Será quase impossível no futuro que um outro futebolista português consiga gerar tantos sentimentos positivos como Eusébio.

Mesmo que venha a dispor de uma excelente gestão da sua imagem, faltar-lhe-á a misticidade de ser um pioneiro como o Pantera Negra – não desprezemos a capacidade aglutinadora dos que lançam as bases – e o toque de proximidade, que se deve ao facto de Eusébio ter feito carreira praticamente só ao serviço de um clube português.

A globalização do futebol e a fraca competitividade do campeonato português (que em conjunto obrigam à saída das potenciais figuras) não permitem a criação de um mito com estas proporções.

João Socorro Viegas

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