quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O que aprendi com três estagiários

Esta semana, escreverei um artigo muito breve e à moda antiga: terá dois pontos essenciais e uma pequena conclusão. Não porque o tema não mereça um tempo de reflexão estendido, mas sim porque merece que falemos sobre ele, directamente e sem rodeios.

Nas últimas semanas, tenho trabalhado directamente com alguns estagiários provenientes de áreas diferentes. Confesso que a opção de procurar estagiários ao invés de colaboradores já com trabalho comprovado foi uma decisão difícil de tomar, mas felizmente que a fiz.

A minha experiência com eles fez-me escrever o artigo de hoje, pois se não fosse esta equipa, o resultado não teria sido o mesmo: seria diferente é obvio, mas tenho a certeza de que não seria tão bom.

Dois dos estagiários são da área do design e web development e o terceiro é da área administrativa. É sabido que nas duas primeiras áreas ligadas ao design, ao desenho, à criação de imagem colaborativa, não faltam anúncios todos os dias nos jornais, existem milhares de empresas a “contratar” ou melhor, a precisar de serviços deste género para promover os seus produtos e serviços.

Então, se as empresas precisam de contratar, porque é que continuam tantos jovens com trabalho precário? Algumas perguntas apareciam na minha mente ao ver aqueles três jovens à minha frente, e apercebi-me de algumas coisas importantes.

Quando o estagiário chega, nunca é bem recebido na empresa.
Não é que o tratem mal, mas raramente o tratam como um da equipa, ele acabou de chegar, logo não faz parte do DNA da empresa. Ainda está a aprender. Não sabe o que está aqui a fazer, mas alguém há de o ensinar. Com tempo. Mas não eu.

1) No entanto, um bom líder vê outras coisas.

a) Um bom líder fica expectante na chegada de um estagiário, ele sabe que o estagiário não veio para a sua empresa apenas para aprender, mas também para ensinar. E não há nada que seja mais importante para uma empresa do que APRENDER novas práticas, novas formas. A inovação nasce de uma brecha muito pequena e às vezes essa brecha pode ser uma ideia que ainda está na cabeça de um estagiário.

b) Um bom líder sabe que um estagiário vai fazer todas as perguntas mas ele não tem receio. O estagiário vai perguntar o “PORQUÊ”, o “COMO”, vai perguntar “MAS PORQUE NÃO DE OUTRA FORMA?” Isto vai fazer com que o líder e a restante equipa procurem as respostas e todos sabemos que quando somos obrigados a responder somos obrigados a justificar: e é aqui que muitas vezes vemos que poderemos fazer melhor, justificar melhor. Não porque estávamos errados no passado, mas apenas porque AGORA, já podemos fazer melhor e nem nos tínhamos apercebido.

c) Um bom líder sabe que todas as equipas precisam de sangue fresco. E o estagiário, desde o primeiro dia em que entra na empresa, vai trazer uma nova energia, um entusiasmo capaz de contagiar até as equipas mais acomodadas. Todas as equipas ganham com uma boa dose de adrenalina.


2) No entanto, nós enquanto País, sociedade e empresa, não o valorizamos.

a) Se os estagiários são os que muitas vezes elevam a empresa a um nível mais moderno e sofisticado, deveremos devolver-lhes essa mais-valia, pagando-lhes o que eles merecem. Por exemplo, a moda agora é as empresas contratarem estagiários para as Social Media, o que as faz marcar presença na internet e serem mais prestigiadas. Mas, a maioria destes estágios são sem remuneração, pois a mentalidade é esta: conseguir sugar as mais-valias de um jovem sem ter que lhe pagar pelo trabalho que ele está a exercer. E o pior é que isto está previsto na lei: estagio não remunerado em que os jovens pagam para trabalhar, com as despesas diárias, suportadas pelos pais, que muitas vezes poderão estar no desemprego.

b) Nos jornais todos os dias aparecem dezenas de anúncios de “emprego” a pedirem estagiários em determinadas áreas com remuneração adequada às funções. Na sua maioria, durante a entrevista, o estagiário descobre que a “remuneração adequada às suas funções” são apenas ajudas de custo, como o subsidio de alimentação e transporte público. 

c) Todos os dias, o estagiário entra na empresa às 8h55 e nunca nenhum administrador se perguntou como é que ele consegue pagar as contas no final do mês, ao almoço, ao jantar, ou a gasolina do automóvel.

Os estagiários acabaram de sair, na sua maioria, de uma universidade após concluírem a licenciatura, um mestrado e muitos uma pós-graduação.

Os estagiários acabaram de entrar no mercado de trabalho.

Os estagiários acabaram de dar à empresa aquilo que melhor têm: a sabedoria de querer trabalhar, a vontade de serem reconhecidos, o entusiasmo de estar no início de uma carreira.

As empresas estão a passar ao lado milhares de jovens que poderiam salvá-las da falência, da estagnação, da falta de ideias ou mesmo de crescerem mais e melhor, e nem se apercebem disso.

No final de contas, são os estagiários que ajudam as empresas e não o contrário, e devem ser pagos devidamente por isso, com um salário digno da sua humanidade e escolaridade.

Devemos valorizar mais o empenho de um jovem trabalhador: simplesmente porque serão estes estagiários que um dia, no futuro, poderão dar o primeiro emprego a um dos nossos filhos.

Diana Carvalho

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