quarta-feira, 10 de setembro de 2014

«Ganhar» um debate, essa ilusão

Como é que se define o «vencedor» de um debate?

Logo a seguir ao primeiro duelo Costa/Seguro, a pergunta dominava as análises 
televisivas e os primeiros na net sobre o assunto.

«Seguro esmaga». «Costa perde». «Vencedor inesperado». «Empate técnico». Havia sentenças para (quase) todos os gostos (sim, quase, porque se tornava difícil concluir que o ainda presidente da Câmara de Lisboa tivesse ganho de forma clara o primeiro frente-a-frente na corrida à liderança do PS).

«Ganhar» um debate televisivo pode mesmo ser uma perigosa ilusão. E António José Seguro corre esse risco, depois do desempenho de ontem, na TVI.

Valeu-lhe elogios dos analistas e números melhores dos que está habituado a ver noutro tipo de sondagens. Mas sou capaz de apostar que não será suficiente para lhe valer o triunfo no próximo dia 28.
O ainda secretário-geral do PS foi «mais agressivo» que o seu opositor? Correto. Jogou «ao ataque» e conseguiu ditar o tom da peleja e definir os temas que mais lhe interessavam? Certo.

Mas poderá isso garantir a Seguro uma reviravolta inesperada na tendência destas primárias? Não me parece mesmo nada. 

Esta inédita (e por vezes um pouco desconcertante) disputa no PS pela figura (muito discutível do ponto de vista legal) de «candidato a primeiro-ministro» é, pela sua duração, uma prova de fundo. 

E nas provas de fundo ganha quem tem mais consistência e quem comete menos erros. Não quem, num momento (por muito que esse seja um momento marcante e especialmente visível), dispara os trunfos todos que tem (ou pensa ter). 

Seguro teve o mérito da «performance». Combateu a imagem de «cinzentão», foi duro. Mas exagerou no tom da vitimização. Exagerou nas «queixinhas» ao que António Costa fez ou não fez internamente. Exagerou nas «revelações» de reuniões internas que dirão muito pouco ao vulgar eleitor. 

Conseguiu apanhar António Costa de surpresa. Conseguiu explorar o facto do seu adversário, apesar de ter larga experiência televisiva, ter muito pouca experiência de confronto político (que, a nível televisivo, tem regras e técnicas completamente diferentes, nalguns casos opostas, ao tipo de comentário reflexivo, com muito tempo para utilizar e pouco risco de interrupção, a que Costa está habituado, nos últimos anos, na «Quadratura do Círculo».

Mais direto, com um discurso moralista e a roçar até um tom populista, Seguro passou melhor nos segundos contados do frente-a-frente ao vivo na TV.

Mas lamentar-se da suposta «deslealdade» do opositor não é, propriamente, uma ideia que sustente uma alternativa de governo. «Separar os negócios da política» é tão vago como difícil de concretizar. 

Costa optou por manter o caminho da não confrontação até ao limite do aceitável. Não foi especialmente feliz quando elaborou a defesa às críticas que Seguro lhe lançava e passou demasiado depressa pela referência à «herança socratista», que o adversário não se cansou de relembrar («Não conseguimos mudar o passado»).

Mas, curiosamente, o «challenger» do ainda líder, ao terminar o primeiro debate com um registo de discrição por vezes excessiva, passou incólume a erros que pudessem comprometer-lhe no futuro. Ao contrário de Seguro, que no estilo ofensivo caiu na declaração mais perigosa da noite: «Demito-me se tiver que aumentar os impostos».

Provavelmente, uma frase candidata ao prémio «aquilo que os eleitores não gostariam de ouvir de um futuro primeiro-ministro». 

Falta o terceiro duelo (esta crónica foi escrita imediatamente antes do segundo e publicada já depois do frente-a-frente na SIC). E grande parte do jogo que Seguro tinha escondido já foi posto na mesa. Uma análise mais global continua a dar a Costa uma ampla vantagem: a vantagem dos votos (mais de 50% em Lisboa, perante escassos 31% do PS nas europeias); a vantagem dos apoios (uma esmagadora maioria dos «notáveis» socialistas está com Costa, quase nenhum antigo dirigente de topo do PS cauciona a continuidade de Seguro); a vantagem das expetativas (Costa arrasa Seguro nas pesquisas, seja em características de liderança, seja em capacidade de derrotar a direita nas legislativas e até de construir maiorias pós-eleitorais).

Ora, isso é bem mais relevante para a eleição de 28 de setembro do que o desempenho vistoso de Seguro no debate inaugural. 

Em política, é arriscadíssimo falar do futuro, mas é de prever que no debate que falta, Seguro não seja tão agressivo («queimou» boa parte dos trunfos que tinha) e Costa surja com o «media training» mais afinado. 

Mas, já agora: alguém se lembra de como Barack Obama teve um primeiro debate desastroso contra Romney (derrota estrondosa nos «media» e nas pesquisas sobre «quem tinha ganho o debate»), nas presidenciais americanas de 2012? 

Pois bem, um mês depois, o 44.º Presidente americano estava a festejar a reeleição. Que nem sequer foi renhida. 

Germano Almeida














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