sexta-feira, 23 de maio de 2014

Pode alguém ser quem não é?

A comunicação deve servir para transmitirmos uma ideia, uma mensagem, um
percurso.

Não faz milagres, mas pode servir de instrumento fundamental para que um político, um empresário, um CEO, um treinador de futebol, um craque da bola, possa ter sucesso.

Bem usada, pode valer promoções ou ganhar eleições. Mal utilizada, ameaça carreiras e pode comprometer objetivos fundamentais.

A boa comunicação é amiga de quem a sabe usar. Má comunicação pode ter efeitos desastrosos e, por vezes, até profundamente injustos para quem tinha tudo para chegar mais longe.

Se é fácil perceber que a comunicação, por si só, não é suficiente e deve sustentar-se numa ideia, numa instituição, ou numa pessoa que tenham algo sustentado para transmitir, sobram dúvidas sobre como e quando usar o poder da palavra e da imagem.

Parafraseando o enorme Sérgio Godinho, apetece perguntar: «Pode alguém ser quem não é?»

É que o dilema, na área da comunicação, é mesmo o que dá título a uma das mais belas canções do autor e cantor português, inicialmente gravada no final da década de 70, no álbum «Pré-Histórias».

Alguns exemplos da inquietação que tento expor nesta crónica: se toda a gente sabe que Jorge Jesus não tem na retórica e na bagagem cultural o seu forte, fará sentido pô-lo a citar frases de… Pascal e a falar de quadros de Paula Rego?

Não fará mais sentido reforçar os méritos táticos de um treinador com inegáveis méritos e resultados acima de qualquer suspeita?

Identificada a contradição, devo também dizer que noto evolução positiva na forma como o agora treinador campeão nacional foi comunicando, desde que chegou ao Benfica.

Não foi por isso que ganhou, esta época, três títulos e ainda chegou a uma final europeia, é claro. Mas essa evolução terá ajudado a que Jesus ganhasse mais tempo para impor as suas ideias e mostrar resultados num clube onde a obrigação de ganhar é… quase imediata.

E quanto a esta bizarra campanha eleitoral para as europeias: Paulo Rangel e Francisco Assis são apontados como dois dos políticos portugueses mais bem preparados.

Têm ambos um perfil racional, não são associados a «carreirisimo» partidário, têm ideias próprias e uma dimensão intelectual indiscutível.

Perante este perfil dos cabeças-de-lista dos dois blocos partidários mais votados (coligação de governo e PS), era de esperar uma campanha elevada no plano das ideias.

Pedagógica, de preferência, tendo em conta a dificuldade dos temas, numa campanha europeia.

Ora, a que é que se assistiu: a um espetáculo deprimente de trocas de acusações estéreis, criadas de forma artificial, entre dois políticos que a nível pessoal até se respeitam e que teriam, certamente, condições de empreender um debate bem mais útil e interessante. 

Em vez de valorizarem as respetivas imagens nesta campanha, Rangel e Assis perderam, dia após dia, por tentarem mostrar o que não são.

Não tenho ideias fechadas sobre o tema, juro.

Bastou ter trabalhado durante um ano e meio «do outro lado» (em 21 anos de carreira, tenho 19 e meio de jornalismo e ano e meio como diretor de comunicação da Liga Portuguesa de Futebol Profissional) para ter tido uma noção de como é difícil dar conselhos sobre comunicação.

Trata-se de uma área onde há mais dúvidas que certezas, na qual estamos, diariamente, a agir e reagir, com necessidade permanente de corrigir, reduzir danos, construir um caminho que nunca estará acabado.

Exatamente por isso, vale a pena questionar. Refletir. Quanto mais o faço, mais concluo que, na comunicação, é fundamental respeitar os traços originais de quem está a emitir a mensagem.

Pode alguém ser quem não é?

Germano Almeida

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