quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Gestão do espectáculo e do discurso

Durante muito tempo, a comunicação do desporto foi uma área desvalorizada, tanto por quem produz o fenómeno como para quem atua em outras áreas de negócio, ambos sob a infundada ideia de que este fala somente dentro da sua expressão máxima que é o jogo em si. Felizmente, esse panorama tem vindo a ser alterado e, hoje em dia, existe uma clara preocupação na promoção do espetáculo através de um discurso cuidado, ponderado, mas igualmente apelativo.

O desporto cada vez gera maior interesse. Embora seja recorrente dizer-se que o mesmo está decadente, só o facto de as principais multinacionais gastarem milhões em patrocínios nos grandes eventos desportivos ou de as principais marcas se associarem aos grandes atletas contraria essa crendice. Neste caso em particular, é o chamado “marketing através do desporto”, uma das facetas mais importantes e que actua em consonância com o “marketing do desporto”, este directamente relacionado com a produção de serviços de natureza desportiva.


Com a popularidade a aumentar, o fenómeno mediático regista também ele um crescimento significativo. E isso traduz-se numa maior capacidade de promoção dos espectáculos, com o que de positivo e negativo tal arrasta. Os media acompanham cada vez mais de perto o desporto que, com a explosão das redes sociais, onde muitas das estrelas têm um perfil, é também em si a “Aldeia Global” projectada por Marshall McLuhan. 

A divulgação do desporto já extravasa o momento da “confrontação” “face to face” entre o desportista/promotor do evento e o jornalista. Nesta fase, todas as ações são escrutinadas, sejam elas oriundas da vida real, chamemos-lhe, assim, ou virtual. É por isso que as ações via Facebook ou Twitter não podem, nunca, jamais, ser imprudentes.


Recentemente, o futebol brindou-nos com um caso de má gestão e promoção do espectáculo por via de um discurso errático. Nem mais, nem menos, do que o homem que lidera a modalidade a nível Mundial. Joseph Blatter, presidente da FIFA, mostrou em Oxford junto a uma plateia de universitários a sua preferência por Lionel Messi em relação a Cristiano Ronaldo, usando um tom jocoso, num ambiente “familiar” que o terá feito baixar a guarda. Um erro fatal para alguém com um cargo tão importante e cujo escrutínio do desempenho da função é feito a todo o momento. Não está em causa a preferência de Blatter, nem tão-pouco o facto de a ter divulgado. 

Todos têm direito à opinião. Mas, na condição de um dos principais promotores do futebol, o presidente da FIFA deve ter cuidado extra na abordagem a um assunto que motivou já críticas de imparcialidade à instituição.


Quando falamos da gestão do discurso e do espectáculo, este é um exemplo crasso de um descuido grave. Não só descredibiliza a figura do presidente mas igualmente da cerimónia de entrega dos prémios de melhor jogador do Mundo, já de si envolta numa aura de desconfiança, tenha a mesma razões de ser ou não. O facto é que essa aura existe, está lá.


O produto desportivo tem uma certa especificidade, quando comparado com outros. Trata-se igualmente de um serviço prestado, mas com uma componente de lazer reforçada e, principalmente, com um nível de paixão exacerbado, que origina comportamentos tribais. No entanto, e apesar de a fidelização dos seus consumidores não estar em causa neste caso em particular, a ausência de um discurso ponderado motiva uma certa descredibilização do fenómeno do futebol.


João Socorro Viegas
Journalist at sports newspaper Record

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