Mais do que um BLOG

Todas as temáticas sobre a Comunicação. Notícias frescas sobre as últimas tendências do meio!

Equipa diversificada por profissionais do meio

A nossa equipa é composta por diferentes profissionais da área da Comunicação. Assessoria, Comunicação Corporativa, Redes Sociais, Protocolo e Marketing Pessoal são temas que semanalmente vamos abordar por aqui!

Assessoria de imprensa

Abordagem de questões/temáticas que se colocam frequentemente aos assessores de imprensa.

A Comunicação e as Redes Sociais

A disseminação de informação pelas redes sociais mudou totalmente o paradigma do tempo em relação à prática da comunicação empresarial, sobretudo no que diz respeito à assessoria de imprensa. Hoje, possuir uma cultura de comunicação é insuficiente. É necessário ter uma cultura de comunicação em tempo real,

Comunicação Corporativa

A comunicação corporativa é essencial para empresas e precisa ser colocado em prática para otimizar a eficiência do trabalho corporativo.

Mostrar mensagens com a etiqueta Comunicação Política. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Comunicação Política. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Hillary 2016 em 138 segundos

A comunicação política não tem idade.

Tem regras, depende do gosto, varia o seu efeito em função do segmento que pretende atingir.

E sim: faixas etárias diferentes reagem de forma diversa à mesma mensagem.

Mas a capacidade de as transmitir não tem prazo de validade: Hillary Clinton que o diga.

Super favorita à nomeação presidencial democrata (tem 50 pontos de avanço nas primárias do seu partido), a ex-secretária de Estado norte-americana é, a ano e meio das eleições que vão definir o sucessor de Barack Obama na Casa Branca, a pessoa mais bem colocada para vencer a eleição.

Mesmo nos possíveis duelos com os eventuais candidatos republicanos, as sondagens dão vantagem considerável (sempre com dois dígitos) a Hillary, seja o nome do possível opositor Jeb Bush, Scott Walker, Marco Rubio ou qualquer outro dos vários pretendentes. Com 69 anos à data da eleição (vai completá-los em outubro de 2016), Hillary Clinton teria na idade avançada (77 no final dos dois mandatos que pretenderá liderar na Casa Branca) o seu maior problema.

Ora, a forma como escolheu marcar o arranque da sua segunda candidatura presidencial praticamente resolveu essa questão.

O vídeo «Getting started», com apenas dois minutos e 18 segundos, juntou quase tudo o que a candidata pretende desenvolver, nos próximos 19 meses.



Nesses 138 segundos, estão lá os focos da agenda política e social de Hillary Clinton:
  • dar força e condições à «working middle class america»;
  • as minorias étnicas (negros, hispânicos, asiáticos);
  • as minorias sexuais (casal gay de dois homens; casal gay de duas mulheres);
  • as mulheres jovens, que pretendam juntar carreira e família;
  • até uma recém-reformada com vontade de continuar ativa.
A dar consistência a tudo isto, uma ideia geral de otimismo e «cal to action» (mobilização para a ação), muito americana e que se insere numa espécie de «fase II» da versão democrata de recuperação pós-crise. Tudo num ambiente de «mudança para melhor», também ele muito americano.

Hillary quis, no vídeo, lembrar que os piores anos já passaram, mas deu como ideia forte: «Há muito ainda a fazer. E está na altura de dar às pessoas as vantagens da recuperação».

Ela quer, por isso, ser a «campeã que os americanos precisam», porque «o sistema ainda está construído para favorecer quem está no topo».

Entre a confirmação do «core» democrata que foi apoiando Barack Obama (minorias étnicas, sexuais, classe média trabalhadora, mulheres e jovens), há aqui uma «nuance» importante: ela deixa a entender que o Presidente Obama não foi suficientemente longe no ataque ao «business as usual» e aos «alçapões de Wall Street».

Sendo Hillary, há décadas, uma pessoa «do sistema» (Primeira Dama com agenda própria durante oito anos; senadora nos oito seguintes; quase nomeada presidencial democrata em 2008; secretária de Estado no primeiro mandato de Obama), ela poderia ter dificuldades em assumir-se como a candidata que vai conseguir mudar esse «status quo».


E este vídeo ajuda a posicioná-la onde quer: nesses 138 segundos, a candidata só aparece perto do centésimo e depois de ouvirmos e vermos as histórias de «real people» que ela pretende apoiar e «patrocinar», uma vez na Casa Branca.

Em entrevista que me concedeu para o site TVI24, Bill Schneider, comentador político da CNN, observou: «Não foi um anúncio em grande estilo, com grande aparato, tipo «shock and awe». Foi pessoal e «friendly». E não foi, de modo algum, sobre a candidata. Ela já é suficientemente conhecida. A intenção do video foi mostrar a sensibilidade de Hillary. A sua ligação ao mundo real.
Um anúncio assim poderia não resultar com candidatos menos conhecidos.»

Correu tudo bem no lançamento de Hillary16’?
Não. Contrastando com o excelente «Getting started», o «logo» da campanha não está à altura do vídeo: tem linhas antiquadas, uma ideia demasiado simples (aproveita o H de Hillary e faz uma seta a apontar para a frente, com um jogo de cores azul e vermelho, «obrigatório» na América dominada pela dicotomia blue/red).

Em janeiro de 2007, quando anunciou a sua primeira tentativa presidencial, Hillary também o fez por um vídeo, para confirmar: «I’m in… and I’m in to win!»
 


Quase tudo diferente, há oito anos e quatro meses: estilo clássico de comunicar, mera mensagem da candidata, em ambiente a misturar carga institucional com noção familiar.

Hillary16’ arrancou com muito mais força e modo mais inovador e mobilizador.
A candidata, mesmo perto dos 70, está hoje muito mais tecnológica.

Em versão «3.0», pondo para trás os fantasmas do passado e cheia de vontade de agarrar o futuro.
 
 
Germano Almeida

terça-feira, 31 de março de 2015

Mitos e medos que não resistem à realidade


A política é uma caixinha de surpresas e isso nem sempre é mau.
O que se passou em França no passado domingo ajuda-nos a perceber um pouco melhor essa ideia pouco divulgada, mas tantas vezes verificada.

Nos últimos anos, sobretudo a partir do acentuar da austeridade na Europa, temos ouvido falar no perigo iminente de Marine Le Pen poder chegar à Presidência da República francesa.
Os resultados das «departamentais» de domingo passado, porém, mostraram que esse receio é manifestamente exagerado.
Marine está a subir, cavalgando o descontentamento em relação a quem costuma estar no poder e teve, nestes anos, que esquecer os valores partidários e carregar nos cortes? Certo.
Isso já valeu à Frente Nacional uma surpreendente vitória nas Europeias e bons resultados em legislativas e eleições locais? Verdade.
Mas uma coisa é ter 25/30% dos votos à primeira volta (e com isso talvez ser a mais votada nessa primeira volta). Outra, completamente diferente, é obter 50% mais um à segunda, em presidenciais.
Lembremo-nos do que aconteceu ao pai de Marine, Jean Marie Le Pen.
Em 2002, e depois de muito tentar nos anos 80 e 90, escandalizou o «mainstream» da política francesa e europeia ao chegar à segunda volta, sendo mais votado que o então candidato socialista Lionel Jospin.
O sistema, assustado, protegeu-se, unindo-se em torno do candidato da direita tradicional, Jacques Chirac.
As consequências foram aparentemente tranquilizadoras: Chirac esmagou Le Pen por 82-18. Toda a esquerda votou no «adversário», para travar o «inimigo». Jean-Marie teve, em percentagem, um resultado mais baixo que na primeira volta.
Passou mais de uma década. Marine não é igual ao pai. Tendo herdado a estrutura partidária, as bases, um certo estilo agressivo, arrogante e autoritário, mostra-se, no entanto, mais sofisticada.
Não cai nos disparates de Le Pen pai nas tiradas racistas ou relacionadas com o holocausto. Mas uma análise pormenorizada identifica que o essencial está lá: o nacionalismo extremado, a defesa do regresso às fronteiras, a França para os franceses, «nada contra os estrangeiros, mas na terra deles, a França tem desempregados a mais».
Mistura explosiva, em cenário de crise económica e desgaste (cansaço, mesmo) em relação aos partidos de poder.
François Hollande está desacreditado (foi eleito para o Eliseu prometendo trocar a austeridade pelo «investimento» e em poucos meses tornou-se uma espécie de porta-voz de Merkel com sotaque francês).
Manuel Valls, o primeiro-ministro que o Presidente nomeou para evitar a humilhação em pleno mandato, é um líder de governo supostamente «socialista» que, qual paradoxo, se mostra feroz crítico da «esquerda» em quase tudo. Nem mesmo «Terceira Via». Coisa ainda mais original, até.
Sarkozy, enredado em confusões e processos judiciais depois da perda do Eliseu, tenta voltar à ribalta e, em mais uma ironia de que a alta política é fértil, pode ser o beneficiário da crise aguda do PSF.
O cenário parece ser ideal para o «assalto» de Marine ao Eliseu em 2017.
Mas, por vezes, basta uma análise fria da realidade para afastar medos que são repetidos à exaustão, mesmo por supostamente credível.
As eleições «departamentais» de domingo mostraram que Nicolas Sarkozy tem tudo para regressar ao Eliseu em 2017 (e sem grande dificuldade, dado o estado moribundo do PSF, pelo desastre político da presidência Hollande).
Não sendo o regresso de Sarko uma grande notícias, é mais do que tudo um grande alívio.
A derrocada (da República francesa e do projeto europeu, num cenário de Marine no Eliseu) pode esperar.
Marine é para levar a sério. Passou a ser uma «player» indisfarçável do jogo político francês. Pode, até, dizer-se que a bipolarização socialistas/direita tradicional terminou (a Frente Nacional é, neste momento, força quase tão abrangente nas câmaras e nas legislativas que o PSF e a UMP).
Mas a filha de Le Pen nunca será presidente da França. Vai uma aposta?


 
Germano Almeida

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Muito mais do que um político

«Mário Soares não parece ser só o pai da democracia em Portugal. Parece ser o rei dos portugueses» FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, Presidente do Brasil entre 1995 e 2003

http://mediaserver2.rr.pt/newrr/mario_soares_na_festa_dos_90_anos958534bc_664x373.jpg
Mário Soares - 90º Aniversário
Diz-se do Barcelona que é «muito mais que um clube», tal a importância que a marca «Barça» adquiriu como forma de afirmação da Catalunha.

Ora, Mário Soares será o «Barcelona» da política portuguesa: é muito, muito mais que um político.

O agora nonagenário é, verdadeiramente, o pai da democracia representativa, ocidental e parlamentar em Portugal. Soares é, de longe, a maior figura do Portugal pós-25 de Abril, por ter tido a visão e a capacidade política para travar a ameaça (que chegou a ser iminente) de cairmos na esfera soviética, em plena Guerra Fria, nos anos da brasa de 74/75.  

São factos. Devemos-lhe isso. 

Já numa ordem mais subjetiva, considero que foi também o melhor Presidente da República da democracia portuguesa, precisamente por ter sabido vestir a pele do «Presidente de todos os portugueses», inaugurando um estilo que Jorge Sampaio soube (à sua maneira, muito diferente no ponto de vista pessoal, mas na mesma linha política) de uma «Presidência Aberta», para lá dos corredores do Palácio de Belém, junto das pessoas, a ouvir as queixas, a sentir o pulso da vida nacional.

A noção de que «uma maioria presidencial se esgota na noite da eleição», criada por Soares e prolongada por Sampaio -- e que na minha opinião Cavaco Silva não tem sabido interpretar. 

Essa maioria tem que terminar nessa noite, porque o Presidente tem a obrigação de integrar os 40 e tal por cento que não votaram nele. Mas que passaram a tê-lo como «mais alto magistrado da nação».

Só com essa noção se torna possível que o PR seja «de todos», mesmo de quem votou contra ele.

Mas Mário Soares está longe de ser consensual. 

Nunca o foi, mesmo nos tempos em que (início da década de 90), obteve mais de 70% dos votos numa eleição presidencial, fruto do apoio simultâneo de PS e PSD.

Há franjas da população portuguesa (e nem são assim tão minoritárias) que não lhe perdoam determinadas decisões políticas em momentos muito concretos da vida portuguesa: a descolonização, a primeira chegada do FMI, as crises sociais e financeiras dos anos 80, em fases em que Soares em primeiro-ministro. 

Nos anos mais recentes, a direita política tem-no tratado entre a indignação e a condescendência, atribuindo à «idade avançada» algumas das declarações mais encarniçadas do ex-PR contra o «atual governo» e «os malandos da direita». Ou, ainda mais recentemente, no caso Sócrates, contra «essa malandragem que quis montar isto». 

Estou à vontade para defender Soares, neste texto. 

No dia em que o agora nonagenário presidente foi visitar o amigo Sócrates ao cárcere de Évora, escrevi críticas muito contundentes à atitude, às palavras e às acusações gravíssimas que Soares fez contra «o sistema de justiça», «os juízes», «a forma como Sócrates foi preso sem ter sido ouvido por nenhum tribunal (sic)» e até o «recado» que, à entrada do carro, quis dar «àquele juiz» (Carlos Alexandre), numa deriva lamentável de alguém que se sentiu, por momentos, com poder para «mandar um recado» a um juiz de um tribunal de instrução criminal, através dos media.  

Ora, o facto de ter achado que aquelas declarações não respeitam a história e a herança política de Mário Soares mostra como, na minha opinião, a idade não deve ser um fator de desculpabilização ou minimização. 

Soares continua em plena atividade intelectual. Continua a ser um «player» do jogo político em Portugal. E isso é notável. 

«Não gosto nada de ter 90 anos», desabafava Soares nos últimos dias. «Penso sempre mais no futuro do que no passado».

Sempre foi assim: depois de sair de Belém, foi cabeça de lista do PS às europeias. Quase todos diziam que era só um nome para dar votos e que ficaria por Bruxelas só por umas semanas. Nada disso: foi um ativo eurodeputado e cumpriu os cinco anos. 

Discordei da candidatura presidencial de 2005/2006, mas achei, uma vez mais, notável, que alguém com na altura 81 anos tivesse estado em condições políticas e pessoais de ser o candidato oficial do PS. 

O péssimo resultado, quase humilhante (14%, muito atrás de Manuel Alegre, que correu sozinho e zangado com o amigo; a reconciliação viria anos depois) tinha tudo para deixar Soares deprimido e concluindo que o seu tempo acabado.

Qual quê: semanas depois, era vê-lo de novo a escrever, a dar conferências, a incomodar quem estava nos diferentes poderes.

A isso se chama carisma. Força. Determinação. Vontade de olhar para a frente e não para trás.

É isso que tem faltado à política portuguesa e também por isso Soares é «muito mais que um político».  

«Quisemos sempre todos a mesma coisa: liberdade, democracia e respeito pelos outros» MÁRIO SOARES, discurso no almoço do seu 90.º aniversário 

Soares é «muito mais do que um político», não apenas pelo que representou enquanto PR, PM e fundador e líder do PS.

É-o, acima de tudo, pelas características pessoais que tem e pela forma como sempre encarou a vida.

Alguém, como ele, que abandonou o Palácio de Belém aos 72 anos, depois de dez anos de presidência exemplar, com níveis de popularidade que provavelmente nunca mais alguém terá na política portuguesa, teria tudo para se acomodar ao circuito de conferências e homenagens, sem voltar a aventurar-se em eleições e aos espinhos do jogo político.

Só que Mário Soares é o «animal político» na sua mais pura essência. Quis sempre ir a jogo, nunca teve medo de dar a cara, de deitar o corpo às balas. 

«Sou o gajo que lhes atira mais às trombas, por isso é que eles não gostam de mim», comentava Soares, na longa entrevista concedida, na semana passada, a Clara Ferreira Alves, na revista do Expresso. 

«Soares é um homem afectivo, sedutor, cheio de charme e humor, às vezes colérico. E um magnífico contador de histórias, memorialista, escritor político, leitor voraz de jornais, revistas e livros – admirador de Camilo, de Eça, de Teixeira Gomes, de Raul Brandão, de José Rodrigues Miguéis, mas também de Antero, de Cesário, de Pessoa. Faz política como quem respira. Por isso, nunca desiste de lutar por aquilo em que acredita.» ANTÓNIO COSTA, secretário-geral do PS

«Socialista, republicano e laico», Mário Soares conseguiu sempre despertar simpatias junto de alguns setores de correntes políticas adversárias.

Só assim se explica a amizade com Adriano Moreira. Com Freitas do Amaral, seu antigo adversário em corrida presidencial. Figuras de um certo PSD, como Leonor Beleza, António Capucho ou Pacheco Pereira já o apontaram como sendo «da mesma família política». 

«Homem dos americanos» e «anti-comunista» no tempo pós 25 de Abril, esteve na linha da frente da contestação à guerra do Iraque de 2003, censurando Bush, Barroso, Aznar e Blair. 

Esteve, por isso, no lado certo da História, na maior parte das vezes. Talvez nas decisivas. E a isso se chama ter «faro político», algo que, indiscutivelmente, Mário Soares sempre teve. 

Nos últimos anos foram muito mais as vezes que discordei de Soares do que aquelas em que em concordei.

Mesmo preferindo Costa a Seguro, considero que Soares, como fundador do PS, foi tremendamente injusto na forma como tratou António José Seguro, esquecendo-se, por exemplo, que também ele teve que ser líder-do-PS-na-oposição, nos finais de 70 e inícios de 80. 

Discordei da forma por vezes simplista como Soares tem posto tudo no mesmo saco, em relação a este Governo e discordo sobretudo da urgência com que exige a queda deste executivo, ignorando uma vez mais a legitimidade do voto popular e das maiorias parlamentares (conceitos pelos quais tanto lutou).

Mas insisto: a admiração por Mário Soares não diminuiu um milímetro nos últimos anos.

Há décadas que Soares tem visto amigos ou conhecidos adoecer, morrer. Há anos que tem visto aumentar quem, em Portugal, o trata como «um velho irresponsável e impossível de aturar».

Nem assim desiste. Nem assim se abala. O sorriso aberto que tinha no almoço dos seus 90 anos disse-nos tudo sobre o seu estado de espírito e a tal vontade de olhar para o futuro.

«É um homem que contagia. Soares e Liberdade são dois conceitos que se confundem. Mesmo quando não concordo com o que ele diz, é um bálsamo ouvi-lo», observou Pedro Santana Lopes.

«Conheço Mário Soares desde os alvoroços da minha participação na vida cívica. Os meus atritos com ele nunca beliscaram o respeito e a amizade mútuos. E, amiúde, os meus artigos no Diário Popular eram extremamente veementes. Tinha, e ainda tenho, uma esperança imaculada na mudança do mundo. Esta crença pertence aos domínios da fé, bem sei, e Soares alimentava outras direcções. Irritei-me, por vezes, com as suas opções, com as suas extravagantes decisões, com as absurdas amizades que cultivava, como aquela, com Carlucci, o todo-poderoso senhor da CIA. Ele não alterava o comportamento e as coisas ficavam como eram» BAPTISTA BASTOS, jornalista, cronista e escritor, excerto de «Os 90 anos de Mário Soares», Jornal de Negócios

Podemos achar exagerada ou, simplesmente, merecida a importância que os media e os políticos portugueses continuam a dar a Mário Soares (no passado domingo, o «Público» reservou-lhe quase toda a primeira página, com a manchete «Parabéns, sr. Presidente!», sendo que nunca fez algo sequer parecido ao atual inquilino do Palácio de Belém...)

Mas dificilmente voltaremos a conhecer em nossas vidas uma figura com a dimensão histórica e o carisma pessoal e político de Mário Soares.

Nele, até os defeitos e exageros parecem ficar bem.




Germano Almeida

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Só metade do Brasil vai ganhar

O Brasil é o tal país que, na definição genial de Millor Fernandes, «tem um longo passado pela frente». Ou, como sintetizou também com especial precisão o escritor Stefan Zweig, «é um país de futuro… e sempre será».

Deus pode até nem ser brasileiro, mas mesmo quando o Brasil parece caminhar para o abismo, percebemos que, simplesmente, não cabe lá, de tão grande que é.

Terra fantástica com situações miseráveis, paraíso de contrastes, já prometeu ser a grande história de sucesso dos «emergentes», mas os últimos anos podem tê-la condenado ao fantasma do fracasso.

Fica difícil avaliar, neste momento, se prevalece a carga positiva ou negativa de um país com um potencial humano e natural gigantesco, mas com contradições que resistem a ciclos económicos.

Crescimento espetacular, travagem assustadora

O modelo de crescimento do Brasil produziu resultados espetaculares nas últimas duas décadas.

No início dos anos 90, o Brasil era essencialmente um país pobre, subdesenvolvido, estigmatizado pela inflação e pela desvalorização da moeda. Muito marcado pelas diferenças sociais e pela violência.

Nessa altura, quando pensávamos no Brasil, tínhamos sentimentos negativos: aquilo não ia correr bem.

Durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso, tudo mudou: a introdução do real foi o golpe de asa financeiro que lançou as bases para o crescimento económico que se iniciaria pouco depois.

Com Fernando Henrique, o Brasil teve dois momentos cruciais: salvou-se economicamente e começou o caminho da distribuição social.

Seria Lula, seu sucessor na presidência, a acelerar, de modo impressionante, o lado social: muitos milhões de brasileiros saíram da pobreza e passaram a fazer parte de uma nova classe média. E isso é um crédito político tremendo do antecessor de Dilma.

Os programas «Bolsa Família» e «Fome Zero» passaram a ser bandeiras de políticas sociais, citados como exemplos a seguir um pouco por todo o Mundo.

De tal modo que, nesta dura e divisiva campanha presidencial, os únicos consensos foram mesmo os legados sociais de Lula (só possíveis por aquilo que a presidência de Fernando Henrique encetou): Dilma, Aécio e Marina juraram preservá-los.

Ainda hoje, Lula é uma espécie de ás de trunfo da política brasileira.

Saiu do Palácio do Planalto com índices de aprovação entre 70 a 80%, um luxo de que mais ninguém (mais ninguém mesmo) se pode gabar no mundo contemporâneo. Governar em democracia, na era do escrutínio em tempo real, é cada vez mais difícil e a popularidade de Lula, nesse aspeto, é um fenómeno simplesmente notável.

Acontece que a história de crescimento económico espetacular, com consequências positivas na distribuição social, durou duas décadas. Isso mesmo, «durou», porque já é passado.

Teve o «combustível» de taxas de crescimento anuais de 6 a 8%, à boleia de um ciclo de preços altos das matérias-primas nos mercados internacionais. Estudo do PNUD, divulgado no verão de 2013, confirmou esse crescimento impressionante: em 1991, o Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil tinha a nota «muito baixo». Duas décadas depois, merece um «Alto»: um crescimento de 47,5% da qualidade de vida dos brasileiros nos últimos 20 anos.

Só que falta encontrar o equilíbrio social. As manifestações do verão de 2013 puseram a nu esse problema: o crescimento económico, mesmo com os programas sociais, não resolveu as diferenças sociais.

A corrupção (que, no Brasil, é clara em todos os níveis de poder, desde o local ao federal, com forte relevância no plano estadual) agrava essa sensação de desperdício e de injustiça social.

Novo paradigma, ganhe quem ganhar

Os 12 anos de poder do PT (oito de Lula, quatro de Dilma) basearam-se num contrato: o enriquecimento do Brasil pela via da exportação teria retorno na preservação dos programas sociais.

Apesar do desgaste de vários casos de corrupção a atingirem figuras muito próximas de Lula e Dilma, a verdade é que esse contrato foi-se aguentando. E isso nota-se nesta eleição: os 41% de Dilma no primeiro turno, sendo abaixo do que se esperava, basearam-se, em grande parte, na massa de eleitores dependentes desse grande «contrato social» alimentado pelo PT.

Sucede que esse contrato está a acabar: mesmo que Dilma seja reeleita.

O Brasil está com crescimento anémico. Os 8% já lá vão e foram reduzido a um décimo disso. Ora, se um crescimento de 0.8%, hoje em dia, é quase festejado numa Europa habituada à estagnação, no Brasil é socialmente insustentável.

Não chega para alimentar os programas sociais, não dá para manter a rota desenhada para crescer indefinidamente.

Para manter o atual modelo económico, o Brasil precisava de crescer, no mínimo a 4%. Como isso, tão cedo, não voltará a acontecer (sobretudo com os preços das matérias-primas a baixar nos mercados internacionais), temos que concluir que a era do poder do PT terminou – mesmo que Dilma vença Aécio no segundo turno.

Para Aécio será mais fácil, caso vença: o discurso de «mudança» pega melhor num momento como este. Dilma terá, certamente, mais dificuldades em moldar o seu discurso e a sua prática de governação, caso garanta um segundo mandato.

Dilma no Norte, Aécio no Sul

Há dois «Brasis» expressos nas urnas e o primeiro turno foi eloquente a prová-lo.

O Norte e o Nordeste, muito mais pobres que a média nacional e dependentes dos programas sociais, estão gratos a Lula e Dilma e permanecerão fiéis ao PT.

As pesquisas dão quase 70% a Dilma nessas regiões para a segunda volta.

O Sul, o Centro-Oeste e os grandes centros urbanos, mais ricos e menos dependentes dos subsídios, votam Aécio, esperando menos peso do Estado na economia e mais segurança urbana.

São Paulo pode ser a chave. Dilma saiu-se mal em «SP» no primeiro turno, mas há a ideia de que poderá recuperar um pouco no domingo. Em contraponto, Minas Gerais pode ser a chave para Aécio. Antigo governador do estado, precisa de ter melhor desempenho no segundo turno.

Também em termos etários se notam clivagens: os mais novos (dos 16 aos 24) e os mais velhos (acima dos 60) votam Aécio; entre os 25 e os 59, Dilma tem pequena vantagem.

Nas redes sociais, Aécio tem mais apoiantes. O eleitor de Dilma surge como menos sofisticado e mais agarrado a hábitos tradicionais.

Mas está tudo muito dividido: aconteça o que acontecer no domingo, parece mais ou menos inevitável que quase metade do Brasil não fique satisfeito com o nome do vencedor.

Não é só isso não ser bom: isso prova, essencialmente, que a era de «consenso» vivida com Fernando Henrique e sobretudo com Lula (já não com Dilma), simplesmente terminou.

O primeiro mandato de Dilma foi um fracasso. O Brasil travou em vez de se manter em velocidade de cruzeiro. Mesmo que, à última, a «Presidenta» obtenha a reeleição, a noção de perda eleitoral é notória.

A eterna história de ricos e pobres

E, depois, há a eterna história dos «ricos e pobres», que vemos nas novelas da Globo e que corresponde mesmo à realidade: o Brasil tem dois «países» encaixados naquela enorme porção terra, tão diversa e tão desigual.

Os mais ricos não querem mais PT e votam Aécio. Dilma tem apoio maciço dos eleitores mais pobres, receosos de que uma mudança no Planalto signifique a perda dos apoios sociais.

A máquina propagandística do PT, de enorme poder triturador dos adversários, tem agitado esse fantasma e isso poderá explicar a recuperação de Dilma nesta reta final (as primeiras sondagens pós primeiro turno davam vantagem a Aécio; nestes dias finais da campanha, Dilma já surge à frente).

As características dos candidatos aumentam essa dualidade: Aécio Neves, neto de Tancredo Neves (que venceu as eleições presidenciais de 1985, mas morreu antes da tomada de posse), nasceu em berço de ouro e tem família influente há várias décadas em Minas Gerais e na política nacional.

Uma análise para lá dos rótulos das campanhas mostra-nos que essa dualidade é artificial. Esta não é, sequer, uma luta entre esquerda e direita.

Em primeiro lugar, porque o PT, desde que tomou o poder, há muito que abandonou práticas «de esquerda» na governação (basta dizer que grande parte das empresas e dos «mercados» desejam a reeleição de Dilma).

Depois, porque, ao contrário do que alguns por cá dizem, Aécio Neves não é «de direita». Tal como Fernando Henrique, de resto, não o era quando foi presidente. O PSDB (Partido da Social-Democracia Brasileira) é um partido moderado, de centro-esquerda, que acredita nos apoios sociais, mas propõe menor intervenção estatal do que o PT assumiu.

Em Portugal, Aécio estaria algures entre o PS e o PSD e bem mais à esquerda do CDS/PP. Fernando Henrique, é bom lembrar, era uma das referências políticas internacionais de Mário Soares e António Guterres durante a década de 90…

A questão é que o cenário político, no Brasil, está mais fletido à esquerdo, se comparado com o nosso.

A escolha de Marina

O mais curioso é que este duelo no segundo turno marca uma espécie de «regresso» à bipolaridade PT/PSDB, que tem marcado as duas últimas décadas na política brasileira.

Fernando Henrique era do PSDB, Lula e Dilma são «pêtistas». Os 20% de Marina há quatro anos e os 22% da mesma Marina agora no primeiro turno pareciam indicar uma terceira via com força para terminar com essa bipolaridade.

Mas não. O centro político continua a ser decisivo e a escolha de Marina por Aécio (ideologicamente improvável, mas politicamente previsível) mostra que os extremos, no momento da decisão, tendem a aproximar-se da moderação.

O beija-mão (literal) do candidato do PSDB a Marina Silva, a selar o apoio para o segundo turno (que poderá ter como contrapartida a entrega do cargo de ministra dos Negócios Estrangeiros à candidata que na primeira volta arrecadou 22% eventualmente decisivos) pode ficar para a história como a imagem que decidiu a eleição presidencial.

Os quase 60% de votos-sem-ser-em-Dilma no primeiro turno pareciam dar boa base de vitória a Aécio para o segundo turno. Os apoios de Marina e da família do falecido Eduardo Campos reforçavam essa ideia.

Depois dos debates, Dilma parece ter retomado as rédeas da corrida. Chega ao dia da votação com 2 ou 3% acima de Aécio nas pesquisas. Mas quem decide mesmo são os eleitores brasileiros no domingo.

E a história mostra que, na hora da verdade, têm escolhido bem.



Germano Almeida

terça-feira, 21 de outubro de 2014

EuroPCom 2014: Imag[in]ing Europe


A quinta edição da EuroPCom, a Conferência Europeia sobre Comunicação Pública, decorreu de 15 a 16 de Outubro em Bruxelas.
A conferência reuniu gestores de comunicação e peritos de alto nível das autoridades locais, regionais, nacionais e europeias. 


Mais de 700 colegas de todos os estados membros da EU participaram neste grande evento de networking composto por palestras, debates e oficinas interativas focadas nos grandes desafios da comunicação pública Europeia.


Nesta página poderá aceder às apresentações e conclusões desta edição da EuroPCom.
Assista ao vídeo resumo:




Por Helder Gonçalves

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

«Ganhar» um debate, essa ilusão

Como é que se define o «vencedor» de um debate?

Logo a seguir ao primeiro duelo Costa/Seguro, a pergunta dominava as análises 
televisivas e os primeiros na net sobre o assunto.

«Seguro esmaga». «Costa perde». «Vencedor inesperado». «Empate técnico». Havia sentenças para (quase) todos os gostos (sim, quase, porque se tornava difícil concluir que o ainda presidente da Câmara de Lisboa tivesse ganho de forma clara o primeiro frente-a-frente na corrida à liderança do PS).

«Ganhar» um debate televisivo pode mesmo ser uma perigosa ilusão. E António José Seguro corre esse risco, depois do desempenho de ontem, na TVI.

Valeu-lhe elogios dos analistas e números melhores dos que está habituado a ver noutro tipo de sondagens. Mas sou capaz de apostar que não será suficiente para lhe valer o triunfo no próximo dia 28.
O ainda secretário-geral do PS foi «mais agressivo» que o seu opositor? Correto. Jogou «ao ataque» e conseguiu ditar o tom da peleja e definir os temas que mais lhe interessavam? Certo.

Mas poderá isso garantir a Seguro uma reviravolta inesperada na tendência destas primárias? Não me parece mesmo nada. 

Esta inédita (e por vezes um pouco desconcertante) disputa no PS pela figura (muito discutível do ponto de vista legal) de «candidato a primeiro-ministro» é, pela sua duração, uma prova de fundo. 

E nas provas de fundo ganha quem tem mais consistência e quem comete menos erros. Não quem, num momento (por muito que esse seja um momento marcante e especialmente visível), dispara os trunfos todos que tem (ou pensa ter). 

Seguro teve o mérito da «performance». Combateu a imagem de «cinzentão», foi duro. Mas exagerou no tom da vitimização. Exagerou nas «queixinhas» ao que António Costa fez ou não fez internamente. Exagerou nas «revelações» de reuniões internas que dirão muito pouco ao vulgar eleitor. 

Conseguiu apanhar António Costa de surpresa. Conseguiu explorar o facto do seu adversário, apesar de ter larga experiência televisiva, ter muito pouca experiência de confronto político (que, a nível televisivo, tem regras e técnicas completamente diferentes, nalguns casos opostas, ao tipo de comentário reflexivo, com muito tempo para utilizar e pouco risco de interrupção, a que Costa está habituado, nos últimos anos, na «Quadratura do Círculo».

Mais direto, com um discurso moralista e a roçar até um tom populista, Seguro passou melhor nos segundos contados do frente-a-frente ao vivo na TV.

Mas lamentar-se da suposta «deslealdade» do opositor não é, propriamente, uma ideia que sustente uma alternativa de governo. «Separar os negócios da política» é tão vago como difícil de concretizar. 

Costa optou por manter o caminho da não confrontação até ao limite do aceitável. Não foi especialmente feliz quando elaborou a defesa às críticas que Seguro lhe lançava e passou demasiado depressa pela referência à «herança socratista», que o adversário não se cansou de relembrar («Não conseguimos mudar o passado»).

Mas, curiosamente, o «challenger» do ainda líder, ao terminar o primeiro debate com um registo de discrição por vezes excessiva, passou incólume a erros que pudessem comprometer-lhe no futuro. Ao contrário de Seguro, que no estilo ofensivo caiu na declaração mais perigosa da noite: «Demito-me se tiver que aumentar os impostos».

Provavelmente, uma frase candidata ao prémio «aquilo que os eleitores não gostariam de ouvir de um futuro primeiro-ministro». 

Falta o terceiro duelo (esta crónica foi escrita imediatamente antes do segundo e publicada já depois do frente-a-frente na SIC). E grande parte do jogo que Seguro tinha escondido já foi posto na mesa. Uma análise mais global continua a dar a Costa uma ampla vantagem: a vantagem dos votos (mais de 50% em Lisboa, perante escassos 31% do PS nas europeias); a vantagem dos apoios (uma esmagadora maioria dos «notáveis» socialistas está com Costa, quase nenhum antigo dirigente de topo do PS cauciona a continuidade de Seguro); a vantagem das expetativas (Costa arrasa Seguro nas pesquisas, seja em características de liderança, seja em capacidade de derrotar a direita nas legislativas e até de construir maiorias pós-eleitorais).

Ora, isso é bem mais relevante para a eleição de 28 de setembro do que o desempenho vistoso de Seguro no debate inaugural. 

Em política, é arriscadíssimo falar do futuro, mas é de prever que no debate que falta, Seguro não seja tão agressivo («queimou» boa parte dos trunfos que tinha) e Costa surja com o «media training» mais afinado. 

Mas, já agora: alguém se lembra de como Barack Obama teve um primeiro debate desastroso contra Romney (derrota estrondosa nos «media» e nas pesquisas sobre «quem tinha ganho o debate»), nas presidenciais americanas de 2012? 

Pois bem, um mês depois, o 44.º Presidente americano estava a festejar a reeleição. Que nem sequer foi renhida. 

Germano Almeida














sexta-feira, 23 de maio de 2014

Pode alguém ser quem não é?

A comunicação deve servir para transmitirmos uma ideia, uma mensagem, um
percurso.

Não faz milagres, mas pode servir de instrumento fundamental para que um político, um empresário, um CEO, um treinador de futebol, um craque da bola, possa ter sucesso.

Bem usada, pode valer promoções ou ganhar eleições. Mal utilizada, ameaça carreiras e pode comprometer objetivos fundamentais.

A boa comunicação é amiga de quem a sabe usar. Má comunicação pode ter efeitos desastrosos e, por vezes, até profundamente injustos para quem tinha tudo para chegar mais longe.

Se é fácil perceber que a comunicação, por si só, não é suficiente e deve sustentar-se numa ideia, numa instituição, ou numa pessoa que tenham algo sustentado para transmitir, sobram dúvidas sobre como e quando usar o poder da palavra e da imagem.

Parafraseando o enorme Sérgio Godinho, apetece perguntar: «Pode alguém ser quem não é?»

É que o dilema, na área da comunicação, é mesmo o que dá título a uma das mais belas canções do autor e cantor português, inicialmente gravada no final da década de 70, no álbum «Pré-Histórias».

Alguns exemplos da inquietação que tento expor nesta crónica: se toda a gente sabe que Jorge Jesus não tem na retórica e na bagagem cultural o seu forte, fará sentido pô-lo a citar frases de… Pascal e a falar de quadros de Paula Rego?

Não fará mais sentido reforçar os méritos táticos de um treinador com inegáveis méritos e resultados acima de qualquer suspeita?

Identificada a contradição, devo também dizer que noto evolução positiva na forma como o agora treinador campeão nacional foi comunicando, desde que chegou ao Benfica.

Não foi por isso que ganhou, esta época, três títulos e ainda chegou a uma final europeia, é claro. Mas essa evolução terá ajudado a que Jesus ganhasse mais tempo para impor as suas ideias e mostrar resultados num clube onde a obrigação de ganhar é… quase imediata.

E quanto a esta bizarra campanha eleitoral para as europeias: Paulo Rangel e Francisco Assis são apontados como dois dos políticos portugueses mais bem preparados.

Têm ambos um perfil racional, não são associados a «carreirisimo» partidário, têm ideias próprias e uma dimensão intelectual indiscutível.

Perante este perfil dos cabeças-de-lista dos dois blocos partidários mais votados (coligação de governo e PS), era de esperar uma campanha elevada no plano das ideias.

Pedagógica, de preferência, tendo em conta a dificuldade dos temas, numa campanha europeia.

Ora, a que é que se assistiu: a um espetáculo deprimente de trocas de acusações estéreis, criadas de forma artificial, entre dois políticos que a nível pessoal até se respeitam e que teriam, certamente, condições de empreender um debate bem mais útil e interessante. 

Em vez de valorizarem as respetivas imagens nesta campanha, Rangel e Assis perderam, dia após dia, por tentarem mostrar o que não são.

Não tenho ideias fechadas sobre o tema, juro.

Bastou ter trabalhado durante um ano e meio «do outro lado» (em 21 anos de carreira, tenho 19 e meio de jornalismo e ano e meio como diretor de comunicação da Liga Portuguesa de Futebol Profissional) para ter tido uma noção de como é difícil dar conselhos sobre comunicação.

Trata-se de uma área onde há mais dúvidas que certezas, na qual estamos, diariamente, a agir e reagir, com necessidade permanente de corrigir, reduzir danos, construir um caminho que nunca estará acabado.

Exatamente por isso, vale a pena questionar. Refletir. Quanto mais o faço, mais concluo que, na comunicação, é fundamental respeitar os traços originais de quem está a emitir a mensagem.

Pode alguém ser quem não é?

Germano Almeida

quarta-feira, 19 de março de 2014

Putin e Obama entre o xadrez e o «bluff» na Crimeia


«Sempre respeitámos a integridade territorial ucraniana. Não a queremos ver retalhada»Vladimir Putin, Presidente da Rússia
«Kiev é a mãe de todas as cidades russas»
Vladimir Putin, Presidente da Rússia
«Uma proposta de referendo sobre o futuro da Crimeia violaria a Constituição ucraniana e a legislação internacional»
Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos
«O uso da força seria uma situação extrema, mas reservamo-nos ao direito de utilizar todos os meios para defender os cidadãos ucranianos e russos étnicos»
Vladimir Putin, Presidente da Rússia
«As questões a resolver na Crimeia devem ser diretamente dirigidas ao governo ucraniano»
Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos 

A crise da Crimeia pode parecer apenas uma disputa de território entre Rússia e Ucrânia. Mas há muito que passou a ser, essencialmente, um jogo de forças entre os dois principais líderes mundiais do momento: Barack Obama e Vladimir Putin.
O final da Guerra Fria deveria ter-nos anunciado que o tabuleiro mundial deixara de ser dominado pelos líderes políticos de Washington e Moscovo.
Fukuyama publicava «O Fim da História» e a tese dominante era de que os EUA haviam passado a ser a única superpotência e que a URSS, entretanto desfeita e concentrada no poder russo, tendia a aproximar-se da Europa Ocidental e, por consequência, da NATO e do guarda-chuva americano.
O 11 de Setembro de 2001 foi o «cisne negro» que anunciou tempos bem mais complexos de se analisar.
Mesmo mantendo um poder militar impressionante, os EUA perderam o estatuto de «ás de trunfo» e tiveram que passar a contar com outros «players» (por vezes aliados, noutros casos, mesmo adversários até inimigos, regionais).
Não nos enganemos: a América continua a ser o único poder decisivo global. Entra, para ganhar, em todas as frentes. Mas a progressiva redução de interesse em entrar em novas aventuras (sobretudo depois das campanhas infelizes no Iraque e no Afeganistão) obrigaram os EUA a fazerem um «shift» do «hard power» (tropas no terreno, mobilização pesada) para o «soft power» (aposta na diplomacia, redução de efetivos, fecho ou diminuição de bases militares fora dos EUA).
Da «hegemonia» passou-se para a «contenção». À Doutrina Bush de «ataques preventivos para espalhar a democracia» sucedeu a Visão Obama de «estratégia de contenção, dominada pelo realismo».
A América continua a mandar, mas passou a querer fazê-lo à distância. Daí a aposta nos drones (aviões militares não tripulados), daí a redução drástica de militares americanos mortos e/ou feridos em cenários de guerra, nos últimos anos.   
Esta evolução de política tinha tudo para ser bem-sucedida.
Barack Obama, o Presidente-Nobel-da-Paz-apenas-nove-meses-depois-de-ser-eleito, nunca quis ser visto como um «líder de guerra». Cumpriu a retirada do Iraque. Cumprirá nos próximos meses a saída do Afeganistão. Inaugurou na Líbia o conceito de «leading from behind» (os americanos participaram na eliminação de Kaddhafi, mas, desta vez, foram ingleses e franceses a fazerem as despesas da frente de combate).
Na Síria, Obama demorou dois anos a dar um murro na mesa perante os crimes de Assad. E só depois de passada a «red line» do uso de armas químicas. Defendeu ação militar, evitou-a na 25.ª hora, depois da proposta de mediação de Putin.
Com o Irão, a América de Obama passou, em poucos meses, da vertigem nuclear (nos debates presidenciais em outubro de 2012, Mitt Romney mostrava gráficos a garantir que «lá para maio de 2013 o Irão terá a bomba, se nada for feito») para a cooperação a caminho da parceria comercial com o regime de Rohani. 
Esta «nova América», contida e quase avessa à ideia de avançar para novas guerras, estava até mais disposta a olhar para o Pacífico (para defender interesses estratégicos no Japão, no Vietname e na Coreia do Sul, perante as ameaças crescentes da China e da Coreia do Norte) do que para o Atlântico.
Atrapalhada com a crise da sua jovem moeda, a Europa ficou desiludida com um Obama que incensara na primeira eleição, mas a quem já olhara com mais desconfiança na reeleição, em 2012.
Nem a ideia de uma «plataforma transatlântica de livre comércio», lançada pelo Presidente Obama no discurso do Estado da União 2013, resolveu o afastamento. A aproximação comercial está ainda a ser desenhada e sobram dúvidas sobre as reais vantagens para os países europeus.
Ao mesmo tempo, em Moscovo, Vladimir Putin foi reforçando a sua liderança «imperial». Não expansionista, não agressiva, é certo, mas com um certo revivalismo imperial.
A Rússia de Putin tem interesses comerciais profundos no espaço europeu: com a Alemanha, obviamente, mas também com a França e até com o Reino Unido (uma boa percentagem dos grandes investidores da City londrina são russos).
A revolução da Praça de Maidan parecia ter-nos explicado que a Ucrânia, entalada entre Moscovo e Berlim, entre o bloco de Leste e o conforto do Ocidente, teria preferido «o nosso lado».
Mas as coisas não são bem assim. Em Kiev surgiu um novo poder ainda frágil e contraditório («pró-europeus» misturados com «neo-nazis» e até judeus e russos no mesmo governo...).
A jogada de Putin apanhou todos de surpresa: o líder russo deu sinal de força e disse bem alto que a Crimeia é, essencialmente, russa.
O mapa e a História, admitamos, não o desmentem.
Mas é aqui que entram uma profunda divergência de leituras entre americanos e russos, entre Obama e Putin. A América dá prioridade aos acordos, às fronteiras, ao direito internacional. A Rússia dá primazia ao orgulho, à história e à «noção patriótica».
O resultado do referendo não deixou margem para dúvidas: uma esmagadora maioria dos habitantes da Crimeia prefere a Rússia. Mas os valores... «norte-coreanos» da votação (só faltava mesmo terem sido 99.9%) retiraram credibilidade ao ato realizado.
O que virá a seguir?
Ninguém sabe. As frases mencionadas no início deste texto dão conta da ambiguidade de Putin: ora quer respeitar os acordos internacionais, ora avisa que Kiev, a capital ucraniana, é «a mãe de todas as cidades russas».
Tropas de Moscovo a avançar para a capital da Ucrânia? Não é impossível, mas nesta fase da crise, não se afigura provável.
Ninguém quer a escalada do conflito. A Rússia seria a grande vítima de uma afrontação direta com a NATO. Isso não irá acontecer, mas o «novo czar de Moscovo» está a testar aos limites a paciência e os receios do Ocidente.
Guerra Fria, versão século XXI, mas apenas na retórica e na batalha da comunicação. Uma disputa de territórios, um testo às fronteiras até onde poderá chegar a influência de Moscovo no espaço europeu.
Obama talvez seja forçado a alterar os seus planos de «flexão» para o Pacífico. E é de esperar que o Presidente americano se reconcilie com os europeus, numa aliança reforçada pelo receio comum do «urso» moscovita.
Há coisas que, por muito que o tempo passe, não mudam assim tanto.
Germano Almeida